quinta-feira, 31 de maio de 2012

Visitação de Nossa Senhora Visita do Dom de Deus (Lc 1,39-56)

Ao saber pelo anjo Gabriel que a sua prima, na sua velhice, espera também um filho, com toda a solicitude Maria parte de sua casa para ir visitar sua prima Isabel, arrisca-se a uma viagem até uma aldeia na montanha para estar junto daquela que se encontra de esperanças como ela.
Ao entrar em casa de Zacarias, e ao saudar sua prima, eis que o menino exulta de alegria no seio de sua mãe e Isabel fica cheia do Espirito Santo. Entre a alegria e a surpresa da visitada eis a pergunta, “donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?”
Isabel interroga-se na sua humildade e na sua pequenez sobre a razão da visita de Maria, uma visita normal em qualquer outra circunstância, mas verdadeiramente extraordinária naquele momento, uma vez que Isabel tem diante de si e reconhece pelo Espirito Santo a “bendita entre as mulheres”.
Na surpresa e na exaltação, daquela que é bem-aventurada porque acreditou em tudo o que lhe foi dito da parte do Senhor, Isabel manifesta também a humildade e simplicidade de Maria, que apesar de toda a honra e predilecção não se encerrou na sua glória nem se envaideceu face aos olhos dos outros.
Maria é assim o sinal vivo, a melhor manifestação do mistério que transporta em si, pois tal como vai a casa de sua prima Isabel, sem qualquer pretensão para além da solicitude e do cuidado por aquela que necessita, também Deus vem sem qualquer manifestação extraordinária ao seu povo pobre e necessitado de salvação.
A visita de Maria a sua prima Isabel é a imagem da visita de Deus ao seu povo, a todos os homens, que como Isabel são capazes de reconhecer essa vinda e de se interrogarem reconhecendo o quanto são indignos dela.
Neste sentido o Mistério da Visitação de Maria a sua prima Santa Isabel deve levar-nos a interrogar, donde me é dado que venha ter comigo o meu Senhor? Porque já não se trata da mãe do meu Senhor, mas é o meu Senhor que vem ter comigo todos os dias na sua palavra, no seu amor, e na acção que vai realizando em mim.
Como estou aberto a essa vinda? Como a acolho? E como sou capaz na minha infidelidade e na minha pequenez de reconhecer a predilecção e o amor de Deus que vem a mim sem que eu o mereça?
Como nos diz São Paulo, quando eramos pecadores é que o Senhor veio até nós para nos resgatar e salvar. Estamos nós exultantes de alegria, como nos convida o profeta Sofonias, porque temos o Senhor entre nós, connosco?
Saibamos acolher o dom de Deus, a sua revelação na nossa vida, e exultar jubilosamente por tal dom e com tal dom.
Ilustração: “Visitação”, de Gregório Lopes, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Concede-nos que na tua glória nos sentemos (Mc 10,37)

Se ainda havia alguma dúvida, Tiago e João acabaram de a desfazer ao pedirem ao Mestre que permita sentarem-se ao seu lado na glória. E como se não bastasse, os outros ainda se manifestam contra eles, revelando desta forma como afinal estavam todos na mesma barca, eram devorados igualmente pelos mesmos desejos e aspirações.
E face ao pedido de uns e à murmuração condenatória dos outros, Jesus volta a chamar a atenção para a radicalidade do seguimento, para a necessidade de aceitar o sofrimento do desprendimento e da pobreza, o cálice e o baptismo de sangue, e para a humildade e o serviço como resposta às pretensões de poder e glória.
De facto, só na humildade e no serviço se pode abrir a brecha que permite a acção de Deus, só na humildade e no serviço gratuito se pode combater a vaidade e o orgulho, a pretensão de que fazemos alguma coisa apenas por nós próprios.
Ao dizer-nos que Jesus caminhava à frente do grupo enquanto se dirigiam para Jerusalém, São Marcos coloca em evidência o desbravamento do terreno operado por Jesus, o caminho aberto e experimentado para que nenhum de nós pudesse duvidar da sua possibilidade e da vitória final.
Deste modo, quando aceitamos também beber a taça e passar o baptismo, quando aceitamos em humildade a acção de Deus em nós, sabemos que não estamos sós e recebemos a consolação e a força daquele que também não recuou nem recusou fazê-lo por cada um de nós e por todos os homens.
Há uma vida vivida já em nós, uma vitória que nos alenta e nos fortalece e por isso podemos responder como Tiago e João, “sim Senhor, podemos, contigo poderemos”.

Ilustração: “Jesus em viagem”, de James Joseph Jacques Tissot, Brooklyn Museum.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Nós deixámos tudo para te seguir! (Mc 10,28)

É na continuação do encontro de Jesus com o jovem rico que Pedro de alguma forma reclama “nós deixámos tudo para te seguir”.
De alguma forma é verdade, pois abandonaram as suas ocupações habituais, as suas famílias, mas por outro lado é uma mentira porque ainda que abandonando o mais visível, ainda não tinham sido capazes de se libertar das mais íntimas aspirações de poder e glória.
Havia ainda muito para deixar para trás, para abandonar e seguir verdadeiramente Jesus, embora tal só fosse possível pela Graça daquele mesmo que seguiam, pelo poder do Espírito Santo.
A resposta de Jesus à constatação e reclamação de Pedro é uma abertura à radicalidade, é uma resposta que deixa evidente que ainda havia muito para abandonar, para perder e seguir de verdade o Mestre.
Uma vez mais Jesus mostra aos discípulos e a cada um de nós que o seu seguimento exige uma resposta radical e exclusiva, não há lugar para meios-termos nem para negociações.
Jesus mostra também que a opção de o seguir não é algo temporário ou para quando dá jeito, mas bem pelo contrário é um compromisso por toda a vida, um compromisso que leva a arriscar tudo, ou a experimentar tudo, como a perseguição ou a exclusão.
Somos portanto convidados a deixar tudo, a entregar tudo, a nada guardar, porque só na medida da radicalidade do dom se poderá experimentar a sua fecundidade, o seu poder multiplicador, a sua verdadeira riqueza.
Que o Espírito Santo nos conceda o dom da generosidade, para experimentarmos a riqueza acumulada do que ofertamos e abandonamos por causa do Senhor Jesus e da sua mensagem de salvação.

Ilustração: Monumento ao Peregrino no Alto del Perdón, entre Pamplona e Puente la Reina. Caminho de Santiago. 3 de Maio de 2010.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Aos homens é impossível. (Mc 10,27)

O Evangelista São Marcos conta-nos que um dia em que Jesus se preparava para partir, para pôr-se em caminho, chegou um homem que lhe perguntou o que fazer para alcançar a vida eterna. Ao ser confrontado por Jesus com os mandamentos que devia praticar, o homem respondeu que já tudo isso vivia desde a sua juventude.
Jesus convida-o então a vender todos os seus bens, a dar o dinheiro aos pobres e a segui-lo; proposta demasiado radical que levou o homem a partir pesaroso e triste, pois tinha muitos bens.
Este é o episódio do chamado “jovem rico”, ainda que o Evangelho de São Marcos não nos diga qual a idade do homem que se apresenta a Jesus. Este acontecimento e a recusa do homem servem no entanto a Jesus para mostrar aos discípulos como é difícil um rico entrar no reino de Deus.
Perante esta constatação de Jesus inevitavelmente pensamos nas riquezas materiais, naquelas realidades a que nos agarramos, às quais confiamos o nosso coração e o nosso sentido de segurança, e que de facto nos podem dificultar a entrada no reino de Deus.
Contudo, creio que há uma leitura mais profunda que é necessário fazer e que radica das palavras de Jesus sobre a possibilidade de salvação, uma salvação que é impossível aos homens mas possível a Deus.
Aquele homem apresenta-se diante de Jesus muito seguro do seu cumprimento dos mandamentos, vaidoso e orgulhoso do que afinal já vivia desde a juventude. A salvação estava na sua mão, sob o seu controlo escrupuloso do cumprimento dos mandamentos. E sem o saber comete um grande pecado, o do orgulho, atribuindo a segurança da sua salvação às suas próprias mãos, enriquecendo-se a si mesmo com a atribuição dos méritos do bem realizado.
É face a este orgulho, a esta atribuição pessoal de méritos, a este enriquecimento, que Jesus apresenta a salvação como impossível, porque de facto não está na mão do homem a sua salvação, mas nas mãos de Deus.
Por isso Jesus diz aos discípulos que é difícil a um rico entrar no reino de Deus, a alguém que se auto satisfaz. Só aquele que confia na graça do Senhor e com humildade reconhece e aceita o trabalho que essa mesma graça vai realizando pode entrar no reino de Deus, porque nada tem de seu, tudo lhe vem do seu Senhor.
Procuremos pois com humildade a graça de Deus, os seus dons, para que a nossa pobreza seja enriquecida pelo próprio Deus, e nada seja nosso mas tudo dele.

Ilustração: “O jovem rico afasta-se triste”, de James Joseph Jacques Tissot. Brooklyn Museum.

domingo, 27 de maio de 2012

Homilia da Solenidade do Pentecostes

Celebramos hoje, passados cinquenta dias sobre a Páscoa da Ressurreição do Senhor, a Solenidade do Pentecostes, e os textos que a Liturgia da Palavra nos oferece, nomeadamente a leitura do Livro dos Actos dos Apóstolos e o Evangelho de João, apresentam duas versões do mesmo acontecimento.
Assim, enquanto que o Livro dos Actos dos Apóstolos nos diz que o Pentecostes ocorreu passados cinquenta dias depois da Páscoa, e por isso esta solenidade, o Evangelho de São João coloca o acontecimento do Pentecostes no mesmo dia da ressurreição de Jesus, na tarde desse dia de Páscoa em que pela manhã Jesus se encontra com Maria Madalena e lhe diz que não o toque porque ainda não tinha subido para o Pai.
Não são narrações que se opõem, ou entram em contradição, mas pelo contrário perspectivam o acontecimento de ópticas diferentes. E assim, enquanto que no Evangelho de São João o envio do Espírito Santo e o Pentecostes derivam imediatamente do próprio mistério e acontecimento da ressurreição de Jesus, é a unidade com Jesus que está em causa, nos Actos dos Apóstolos estamos já perante uma narração cuja preocupação fundamental é fundamentar a compreensão da boa nova de Jesus por todos os povos. Era o Espírito que permitia que medos e persas, judeus e gregos, romanos e árabes compreendessem nas suas línguas a mensagem de salvação de Jesus.
O acontecimento do dia de Páscoa e o envio dos discípulos, narrado pelo Evangelho de São João, é de alguma forma confirmado pelos Actos dos Apóstolos, quando narra que após o envio do Espírito Santo todos são capazes de os compreender nas suas línguas. O mandamento do anúncio deixado por Jesus aos discípulos no dia de Páscoa está a acontecer e a dar os seus primeiros frutos.
Mas, se as narrações do acontecimento do Pentecostes divergem na sua situação temporal, encontramos numa e noutra elementos que as unificam, que as justificam como narração do mesmo acontecimento transformante dos discípulos. São esses elementos o vento, o fogo e a comunidade reunida.
O fogo é certamente o elemento que temos mais presente, que mais recordamos pelas línguas de fogo que pairam sobre os discípulos. Contudo, se tal acontece é porque já em outros momentos da história da salvação o fogo tinha estado presente e tinha sido usado como elemento da manifestação da presença de Deus e de uma nova realidade para o homem.
O momento mais significativo é certamente o da manifestação de Deus a Moisés através da sarça-ardente. Deus apresenta-se como um fogo que não se consome, que não se extingue, um fogo que apela e revela. Também no monte Sinai e no momento da Aliança Deus se apresenta como um fogo que cobre toda a montanha e intimida o povo liberto da escravidão do Egipto.
No Antigo Testamento podemos encontrar ainda o episódio em que o profeta Elias é elevado ao céu num carro de fogo, um acontecimento que mostra a possibilidade de transformação radical operada pelo fogo, uma transformação radical da própria natureza da pessoa que é elevada.
Por outro lado o vento é também manifestação da presença de Deus e por isso o mesmo profeta Elias é capaz de reconhecer a presença de Deus na brisa suave, depois de não a ter descoberto em fenómenos mais extraordinários e estrondosos.
Jesus fez também referência a esta relação do Espírito com o vento, dizendo aos discípulos que cada um era capaz de o identificar mas não poderia dizer para onde ia nem de onde vinha. Tal como o vento, o Espírito tem essa natureza de mistério, que se sente mas que não revela para onde leva aquele que envolve nem de onde vem.
Por último os dois relatos do momento do Pentecostes têm por base a comunidade reunida, a comunidade que junta recorda e faz memória do acontecimento de Jesus. É na comunidade que o Espírito se revela presente e transformante daqueles que a compõem.
Neste sentido e como cristãos que receberam o Espírito Santo pelo baptismo não podemos deixar de assumir a sua dimensão transformadora e purificadora. Como nos diz São Paulo, o Espírito vai agindo em nós, moldando-nos e purificando-nos, vai agindo em nós como num processo de gestação para a perfeição na plenitude.
E se há momentos em que essa acção é mais lenta e menos visível é porque da nossa parte falha a cooperação, a conformidade a essa acção que muitas vezes se traduz num simples gemer, numa brisa suave que requer atenção para ser reconhecida e pressentida.
Por outro lado não podemos deixar de assumir também a dimensão comunitária, a realidade da imagem dos membros vivos do mesmo corpo, das pedras vivas da mesma construção. O Espírito coloca-nos em relação uns com os outros, numa interdependência que nos fortifica mas igualmente nos responsabiliza pelo crescimento pessoal e comunitário na diferença de dons e ministérios que cada um pode realizar.
Que o Espírito Santo venha sobre cada um de nós, nos ilumine e nos fortaleça, nos conceda a paz, para em unidade e fraternidade sabermos e podermos cumprir a principal missão a que nos impele, testemunhar que Jesus é o Salvador da Humanidade.

Ilustração: “Pentecostes”, de Grão Vasco. Retábulo da antiga capela da portaria do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

sábado, 26 de maio de 2012

Que será deste, Senhor? (Jo 21, 21)

Ao voltar-se, Pedro vê que é seguido pelo discípulo amado, por aquele que na última ceia reclinado sobre o peito do Senhor lhe tinha perguntado pelo traidor. Ao vê-lo segui-los, Pedro interpela o Mestre sobre a situação, sobre o futuro daquele que tinha descoberto tão profundamente o amor: “que será deste?”.
Notamos na sua pergunta uma preocupação, um carinho por aquele que era o mais jovem, por aquele que certamente sentiria de forma mais intensa a partida do Mestre. Que será deste que se sentiu sempre tão amado?
A resposta de Jesus à questão de Pedro é surpreendente em predilecção por João, “se eu quiser que ele fique até que eu venha”, mas igualmente surpreendente em clarificação do verdadeiramente fundamental para Pedro, “que te importa, tu segue-me”.
Jesus coloca diante da pergunta de Pedro o verdadeiramente fundamental, o seguimento, a missão que lhe tinha sido destinada, tudo o mais era relativo, mesmo o discípulo amado. Ele tinha a sua missão e o seu seguimento a fazer.
Esta resposta de Jesus vem ao encontro de muitas das nossas atitudes, das nossas posições face a pessoas e situações que encontramos na Igreja e na nossa vida e que por vezes nos escandalizam, nos fazem vacilar na nossa fé e no nosso seguimento de Jesus.
Quantas vezes não dizemos que por isto ou por aquilo deixámos de acreditar, deixámos de frequentar a igreja, as nossas comunidades, abdicámos de um papel mais interventivo na vida das comunidades? Quantas vezes a incoerência e infidelidade dos outros nos fez vacilar e até afastar?
E contudo, tal como a Pedro, Jesus continua a dizer a cada um de nós, “a ti que te importa, tu segue-me”. O teu ponto de referência não é o outro mas sou eu próprio. Não foi o outro que te chamou, mas fui eu; não foi o outro que deu por ti a vida, fui eu. E à infidelidade do outro contrapõe-se a minha fidelidade, com ela podes contar sempre, ainda que também sejas infiel.
Que o convite de Jesus nos leve a segui-lo sem que mais nada importe. Ele sabe o convite que fez a cada um e como cada um lhe responde.

Ilustração: “São João Evangelista”, de Frans Hals, Getty Center, Los Angeles.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Simão, filho de João, tu amas-me mais que estes? (Jo 21,15)

Por três vezes Jesus faz a mesma pergunta a Pedro, que não trata com o nome que lhe dera aquando da chamada ao seguimento, mas pelo seu nome de nascença, Simão, filho de João, pelo nome anterior ao encontro com o Mestre.
Ao fazê-lo, com toda a pedagogia que lhe era própria, Jesus traz ao espírito de Pedro a sua condição, a sua humanidade e a fragilidade inerente, uma fragilidade revelada na negação do conhecimento do Mestre aquando do processo que o levou à morte.
A insistência de Jesus na pergunta, ainda que tenha subjacente o pecado de Pedro de o ter negado, tem contudo uma outra dimensão, a do carácter novo e decisivo do apelo que é feito.
Ainda que recordando a Pedro a sua falta, Jesus assume curá-la, purificá-la, e a partir dessa cura fazer-lhe uma nova proposta de vida. Já não se trata apenas de seguir, porque nessa circunstância pode-se debandar, negar; trata-se de amar, porque quem ama não abandona, não deserta, não nega.
E é importante amar, assumir o amor pelo mestre e senhor, porque só dessa forma Pedro poderá assumir a missão que Jesus lhe entrega, apascentar o seu rebanho. Jesus confia afinal a Pedro uma nova missão, a de guiar os seus irmãos.
Uma missão que exige o amor, mas exige igualmente a consciência das suas próprias fragilidades e infidelidades. Uma missão de autoridade, para que a fidelidade se mantenha, mas também uma missão de misericórdia porque todos falhamos e todos nos encontramos a caminho.
Como era bom que todos nós assumíssemos esta dupla dimensão da missão que Jesus confia a Pedro, ajudando os nossos irmãos a crescer e a caminhar na fidelidade aos mandamentos do Senhor, mas fazendo-o sempre com misericórdia e a partir da consciência do quanto nos falta ainda também crescer nessa mesma fidelidade.
Que o Espírito Santo ilumine os nossos corações e todos os nossos gestos na fidelidade e na misericórdia.

Ilustração: “As lágrimas de São Pedro”, de El Greco. Bowes Museum.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Festa da Trasladação de Nosso Pai São Domingos

A Ordem dos Pregadores celebra hoje a Festa da Trasladação de São Domingos. Para os menos familiarizados com as tradições e a história de São Domingos apresentamos uma parte do texto que frei Manuel de Lima compôs para o “Agiológio Dominico”, publicado em Lisboa em 1710 na Oficina de António Pedrozo Galram.

Sublimada ao Céu a alma de Nosso Santíssimo Patriarca, entre os braços de Jesus e Maria, que (como diremos a quatro de Agosto) saíram a recebê-la, foi o sagrado corpo sepultado, conforme a sua disposição, em lugar comum e humilde. E suposto que o Senhor com celestiais prodígios declarasse se não servia de que estivesse em sepultura tão humilde, o corpo de quem no Empireo se via declarado por filho do coração de Deus, e Benjamin da Rainha dos Anjos, contudo, os primeiros Padre, por não faltarem à obediência do que seu Santo Pai lhes ordenara por última vontade, mandando-se enterrar aos pés dos seus Filhos; e pela humildade, com que se opunham a tudo que podia ser esplendor da sua Ordem, passaram doze anos sem tratarem de melhorar a sepultura, antes impediam se pusessem nela votos e testemunhos das repetidas e extraordinárias graças, que por intercessão do Santo Fundador alcançaram os seus veneradores.
Declarado o Céu em acudir a esta falta, inspirou a muitas e gravíssimas pessoas seculares se queixassem ao Para Gregório IX da demasiada modéstia, a que eles chamavam escandalosa negligência dos Filhos, para honrarem a tão Santo Pai; juntamente lhe deram conta dos estrondosos milagres, com que a Omnipotência manifestava os merecimentos e santidade de São Domingos.
Tinha o Pontífice grande conhecimento do servo de Deus, desde o tempo que fora Cardeal Legado; e dando aos Padres uma paternal repreensão do seu descuido, os exortou a transferirem para lugar mais decente as Sagradas Relíquias. Desejou o mesmo Papa achar-se presente a esta função, mas as ocupações e obrigações de Cabeça da Igreja o fizeram este desejo com mandar ao Arcebispo de Ravena, que com todos os Bispos seus sufragâneos fosse assistir em seu nome, e com o possível luzimento.
Quis o Céu autenticar por acertadíssimo este decreto. Refiramos o como com as palavras dos escritores: Concorriam os povos com frequência ao sepulcro do Santo, e a mesma terra publicou que se devia lugar mais elevado àquele corpo, cuja alma estava sublimada na Glória, levantando-se por si ao alto a sepultura com a terra, que cobria a arca deste sagrado depósito, como que o expunha à veneração dos povos, não obstante estar o túmulo tão fortemente fechado, que custou depois grande trabalho a abrir-se.
A tão claros testemunhos do Céu, e da terra, juntos às aclamações dos povos, e ardentes desejos dos devotos, e finalmente às Ordens Pontifícias, não pôde resistir mais a humildade dos antigos Religiosos, antes se determinaram a fazer solene a trasladação, elegendo para ela a Páscoa do Espírito Santo, em que, por causa do Capítulo, que se havia de celebrar, concorreriam mais Padres.
O Provincial da Lombardia frei Estêvão Espanhol, que tinha recebido o hábito, e o espírito das mãos do Santo, tomou por sua conta preparar todo o necessário, e com especialidade um belo sepulcro de mármore. Juntaram-se trezentos Religiosos com o Beato Jordão, que era o Geral da Ordem, e houve votos que se fizesse ocultamente a Trasladação; porém o Beato Padre Nicolau de Juvenaço alcançou na oração não ser esta a vontade de Deus, e declarando o aviso fez mudar de parecer. Assistiu o Arcebispo de Ravena com mais quatro Bispos, o Clero, e Magistrados de Bolonha, toda a nobreza da mesma cidade, grande número de religiosos, e inumerável povo dos lugares circunvizinhos.
Entrou-se ao acto. Puseram à roda da sepultura as pessoas e os Padres mais graves, e apenas se moveu a pedra, quando de repente saiu uma fragrância tão suave, que encheu de delícia e admiração aos circunstantes. Foi crescendo de sorte quando se acabou de tirar a pedra, e se abriu a arca em que se guardava o sagrado depósito, que obrigou a todos a romperem em lágrimas, e a prostrar-se por terra, dando graças ao Senhor por honrar com estas gloriosas demonstrações a seu fiel servo.
Por quinze dias contínuos ficou aberta, e com guardas, a sepultura, para que todo o povo pudesse certificar-se do prodígio; e foram sem número os que em todo este tempo se experimentaram, porque os cegos recuperaram a vista, os coxos pés, os paralíticos saúde, os febricitantes alívio de toda a sorte de enfermidades, remédio; e sobretudo muitos possuídos do demónio se viram livres desta tormentosa escravidão.
Outro caso sucedeu de mais estranhas circunstâncias. Foi, que estava entre os outros Capitulares o Beato João Vicentino, cuja prodigiosa vida referiremos em seu lugar. Este Padre, para dar melhor lugar a um dos Bispos, se pôs da parte dos pés do cadáver. Porém em um instante se viu o sagrado corpo voltado com a cabeça para o seu amado filho frei João, e os pés para o Bispo. Tornou o humilde Religioso a fazer passar o Bispo para a parte da cabeça, pondo-se ele novamente aos pés; e novamente, com assombro de todos, apareceu o corpo do Santo com os pés para o Bispo, e a cabeça para o Filho: sem dúvida para mostrar que no primeiro dia, em que recebia públicas honras da Igreja Militante, a sua mais prezada coroa na terra eram os seus Filhos Santo, qual era o Beato João.

Ilustrações:
1 – “São Domingos”, do quadro Virgem com o menino e São Domingos e Santa Rosa de Lima, de Giovanni António Guardi.
2 – Túmulo de São Domingos em Bolonha.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Pai santo guarda-os em teu nome. (Jo 17,11)

O Evangelho de São João coloca no momento da última ceia, no momento da despedida de Jesus, a prece que Jesus eleva ao Pai por aqueles que o seguiram e seguirão no futuro, a oração chamada sacerdotal de Jesus.
É uma oração íntima, mas na qual percebemos o amor de Jesus pelos seus discípulos, por aqueles que o seguirem, um amor que brota do mesmo amor do Pai.
É uma oração cujos centros são o Pai e os discípulos, uma oração descentrada daquele que a faz, do próprio Jesus, mostrando-nos dessa forma como também deve ser a nossa oração e a nossa vida.
“Pai guarda-nos” é o pedido de Jesus, um pedido carinhoso, cheio de ternura, mas também consciente dos perigos e das ameaças. De facto, se o Senhor não guardar a cidade em vão vigiam as sentinelas.
É necessário estar vigilante, uma vez que estamos no mundo e continuamos no mundo e diante das suas solicitações, mas só sob a vigilância do Senhor, sob a sua guarda, poderemos ter força e coragem para manter o espírito alerta e combater o bom combate da fé.
Guarda-nos Senhor no teu nome que é o amor.

Ilustração: “Camponesa de Willenshausen com criança a dormir”, de Gerhard Wilhelm von Reutern. Museu Imperial Alexandre III, São Petersburgo.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Frei Domingos Maria Frutuoso – Entre a Republica e a nomeação episcopal para Portalegre

Concluímos a resenha apresentada no Encontro da Família Dominicana na Ribeira de Santarém sobre a vida e obra de frei Domingos Maria Frutuoso.

No dia da revolução, a 5 de Outubro de 1910, frei Domingos Maria Frutuoso encontrava-se em Lisboa, pois tinha marcado estar às quintas-feiras e domingos a pregar no Sacramento.
Para nos situarmos um pouco no contexto e perceber a decisão de frei Domingos Frutuoso de sair de Portugal e a dificuldade em regressar, temos que ter presente que de um dia para o outro a situação dos religiosos e da Igreja em Portugal mudou radicalmente.
No dia 5 de Outubro o Colégio de Campolide, dos Padres Jesuítas foi assaltado. Foram assassinados o padre Alfredo Fragues, Superior do Colégio de São Vicente de Paulo e o padre Barros Gomes, dos sacerdotes lazaristas. São atacadas várias igrejas e o antigo Patriarca de Lisboa D. José Sebastião Neto é preso e conduzido até junto de Afonso Costa para um interrogatório.
No dia seguinte, a 6 de Outubro, são invadidos os Conventos do Quelhas e das Trinas em Lisboa e a 8 de Outubro foi ordenada a prisão de vários padres e a expulsão de todos os religiosos para evitar abusos.
Várias leis decretadas pelo governo, contra a Igreja e a sua autonomia e património, levam a que a 24 de Dezembro de 1910 os bispos portugueses assinem uma Carta Pastoral Colectiva que teve como consequência a expulsão dos bispos signatários das respectivas dioceses.
Perante os acontecimentos dos dias 5 e 6 de Outubro não podemos estranhar que frei Domingos Frutuoso tenha sido cauteloso, e não só se tenha refugiado na Casa do Embaixador do Brasil como tenha obtido o livre trânsito que o levou para fora de Portugal e para junto de um conjunto de conhecidos que igualmente se tinham refugiado no estrangeiro.
Tal decisão acarretou inevitavelmente a suspensão do processo de restauração da Província e a perda da casa de Viana do Castelo, casa que frei Domingos Frutuoso viria a recuperar depois de um longo processo judicial que chegou ao Supremo Tribunal de Lisboa em 1918.
Com o encerramento das casas religiosas, para além do frei Domingos Frutuoso, saíram também de Portugal os dois dominicanos espanhóis que se encontravam a ajudá-lo e os dois irmãos cooperadores, frei António e frei José Maria.
Num primeiro momento frei Domingos encontra-se no sul de França, Marselha, juntamente com outros refugiados, mas a 11 de Dezembro está já em Roma, onde se refugiará e poderá assumir o papel de Secretário do Mestre da Ordem até Março de 1911.
Entre Março e Setembro de 1911 frei Domingos Frutuoso faz um circuito europeu, passando pela Suíça, Alemanha, Paris, Bélgica, Holanda, aproveitando em cada lugar para aprender algo novo, para se encontrar com os seus conhecidos, quer exilados portugueses quer antigos colegas do tempo de noviciado em Saint Maximin ou de estudo em Toulouse.

É um tempo de formação, pois aproveita para ler e para tirar notas para as suas futuras pregações. Ainda que um pouco estranho, em Paris encontramos o frei Domingos Frutuoso a assistir a aulas de anatomia.
Na segunda-feira visitei uma sala de autópsias onde estavam dezanove cadáveres, e em volta de cada, dois ou três médicos, alguns conhecidos meus. Vi fazer a operação da apendicite e outras coisas ainda. Com que sem cerimónia estes senhores médicos espatifam os restos da pobre humanidade que lhes cai nas mãos. Mais parecia um talho humano do que uma aula de anatomia. Ainda nisto que diferença se compararmos com o respeito da Santa Igreja com os restos mortais dos seus filhos.”
À medida que o tempo vai passando frei Domingos Frutuoso vai-se aproximando da fronteira de Portugal, pois sente não só as saudades dos seus, mas sobretudo a saudade do seu ministério. Encontramo-lo assim em 1912 em Salamanca com uma grande expectativa sobre o dia do seu regresso a Lisboa, onde os amigos lhe vão preparando as condições para se alojar e exercer o seu ministério.
Há contudo dificuldades, pois não só lhe falta a autorização do Mestre da Ordem, que chega apenas no final do 1912, como também são muitas as opiniões contrárias ao seu regresso. Uma vez mais está em causa a sua segurança.

Este impasse e permanência em Salamanca vai-lhe permitir ajudar as Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena a instalar-se na cidade, pois quando as irmãs chegam em Agosto de 1912 é frei Domingos que as ajuda, juntamente com o Prior de San Esteban, o Padre Cuervo, a procurar casa. Enquanto permanece em Salamanca vai ser junto das irmãs que desenvolverá o seu ministério e encontrará algum conforto para o tempo de espera que se vai dilatando.
Frei Domingos Frutuoso regressa a Lisboa no dia 16 de Fevereiro de 1913, e instala-se numa casa no Dafundo que ocupará apenas por um mês, mudando-se em seguida para a Rua dos Remédios à Lapa.
Face à agitação política e social que o país atravessa, que se reflecte por exemplo nas greves dos correios e transportes públicos, não podemos deixar de assumir que frei Domingos Frutuoso foi de uma coragem tremenda. Posteriormente e uma vez mais por questões de segurança passará as noites no Corpo Santo, para que não lhe aconteça nada.
Ainda que com uma boa rede de relações sociais não podemos deixar de assumir que foram tempos difíceis para frei Domingos Frutuoso, e que foram o trabalho no Colégio do Bom Sucesso e na igreja do Corpo Santo que o ajudaram a não passar mais fome da que se queixa que passou quando escreve a frei Tomás Maria Videira em 1943.
Face às leis que proibiam a vida comum, a permanência de dois padres na mesma casa, quando regressam da sua formação frei Bernardo Lopes e frei José Lourenço em 1915 e 1916, respectivamente, frei Domingos Frutuoso instala-os no Porto enquanto que ele se situa em Lisboa.
Em Setembro de 1917, o irmão frei José Maria Faria vai para o Porto para tratar da viagem de mais dois rapazes, aqueles que frei Domingos Frutuoso trata carinhosamente por netos, pois eram já o fruto do trabalho dos dois padres que o tinham seguido na restauração da Província.
Para fazer face às despesas frei Domingos Frutuoso não se poupa a esforços em pregação e uma vez mais o vemos a pregar por todo o país e aceitando de bom grado todas as esmolas que lhe chegavam por parte dos amigos.
Durante este período uma das suas tarefas regulares, quase mensais, era a vinda ao Seminário Patriarcal de Santarém.

Em 1920 é preconizado Bispo de Portalegre, sendo ordenado na Basílica da Estrela a 27 de Dezembro de 1920. Termina assim o seu trabalho directo na restauração da Província, embora não a sua missão, pois em 1923, quando o Mestre da Ordem Theissling decide a dispersão do grupo português, frei Domingos Frutuos escreve uma carta veemente e contestatária da decisão do Mestre da Ordem. Foi graças a essa carta que os jovens estudantes portugueses enviados para Espanha e França puderam continuar a estudar em ordem à restauração da Província Portuguesa.
Mas a ajuda e o interesse de D. Domingos Maria Frutuoso pela Província não se ficou por aqui, pois neste contexto de dificuldades oferece e acolhe no seu seminário, e enquanto não se abrisse a Escola Apostólica, os sobrinhos do irmão frei José Maria Faria, que mais tarde viriam a desempenhar papeis importantes na história da restauração da Província.

D. frei Domingos Maria Frutuoso morreu a 6 de Julho de 1949 e da noticia publicada no jornal “Novidades” do dia seguinte não podemos deixar de destacar:
“Morre com 82 anos o ilustre prelado, após uma vida cheia de benemerente apostolado, grande parte da qual se desenvolveu na pregação. Frei Domingos Frutuoso, que assim era tratado antes de lhe cingir a cabeça a mitra episcopal, o conhecido dominicano, foi um Pregador de grande renome, não só em Lisboa mas em todo o país. A sua eloquência simples, comunicativa, atingia as almas humildes das gentes das aldeias como as dos mais cultos das cidades, numa forma oratória despreocupada que empolgava e ia fundo aos corações.”
Foi de facto um grande pregador para a sua época, um fogo que abrasava como ele gostava de chamar à pregação, sempre um fogo que incendeia e queima.

Ilustrações
1 – Fotografia dos revoltosos na rotunda no dia 5 de Outubro de 1910.
2 – “Lição de Anatomia”, de Rembrandt.
3 – Fotografia da fachada do Convento de San Esteban em Salamanca.
4 – Fotografia de D. Domingos Maria Frutuoso realizada pela casa J.M.Lazarus, Lisboa.

É esta a vida eterna (Jo 17,3)

No mundo em que vivemos e na sociedade e cultura em que estamos inseridos é justo e desejável perguntar sobre quem acredita na vida eterna. Acreditamos ainda na vida eterna?
Tal pergunta tem todo o cabimento na medida em que funcionamos e construímos num sentido em que parece que não acreditamos. Se não vejamos como quase tudo é feito para não durar, para ser consumido e reposto ou substituído.
Até as nossas casas, que antigamente eram construídas para durarem uma vida, hoje são construídas para serem substituídas. A reflexão intelectual, na sua produção material, passou hoje para uma dimensão em que nos podemos interrogar sobre o legado que deixaremos às gerações futuras.
A própria dimensão ética e moral da pessoa, do homem enquanto ser vivo e reflexivo, caiu numa relativização que denota essa mesma falta de perspectiva eterna ou divina que definem e formam o homem enquanto homem.
É um facto incontestável que a pegada humana no planeta é já bastante acentuada e necessitamos aliviá-la, mas não será que estamos a tornar tudo demasiado provisório, descartável? Até nós próprios?
Jesus recorda-nos que há uma vida eterna, que a morte e o fim não tem a última palavra sobre nós e a nossas realidades. E recorda-nos que a vida eterna é o conhecimento do Deus verdadeiro e daquele que foi enviado a dar a conhecê-lo.
Estamos portanto inseridos numa cadeia, mergulhados numa realidade que é o mesmo Deus e que nos desafia na coerência e consentaneidade com essa mesma realidade. Por essa razão Jesus diz que o que for feito a um dos seus irmãos mais pequeninos é a ele que é feito. Cada gesto, de bem ou de ódio, tem repercussões na realidade, destrói ou constrói o corpo de que todos somos membros.
Neste sentido a vida eterna não é um futuro distante, uma eternidade cósmica, mas é o momento presente, é o aqui e agora em que conhecemos Deus e o fazemos conhecido. E portanto cada palavra, cada gesto de revelação, cada resposta fiel é eternidade vivida.
Que o Senhor nos ilumine o coração e a inteligência para no provisório de cada instante descobrimos a presença de Deus e o desafio da eternidade a fazer-se vida.

Ilustração: “Arco-Íris em Hornillos del Caminho”. Caminho de Santiago. 14 de Maio de 2010.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Mas eu não estou só. (Jo 16,32)

Quando parece que tudo está claro, quando os discípulos dizem ao Mestre que agora lhes fala claro e eles compreendem, eis o volte-face e o regresso à incompreensão, eis o regresso ao confronto com a realidade dolorosa e trágica do abandono e da dispersão.
Quando parece que tudo se encaminha para o bem, para uma harmonia comum, eis a reviravolta, porque afinal nada está compreendido, nada é ainda claro, será necessário passar a experiência da dor e da morte para que alguma luz se faça, se possa fazer.
E para não perderem a esperança, para não caírem no desânimo total diante da tragédia que irão viver, Jesus revela aos discípulos, uma vez mais, a sua relação com o Pai, a vida íntima que partilham. Eu não estou só!
Poderá parecer que o abandono e a traição o deixarão só, poderá parecer que a morte na cruz não é outra coisa para além do sinal da solidão total, mas nada disso significará o que parecerá, porque desde o primeiro momento e nesses mesmos momentos o Pai estará presente, e ele estará no amor do Pai.
Jesus abre assim aos discípulos e a cada um de nós uma travessia no deserto, um corredor de segurança no cenário da violência e do ódio sem medida e sem sentido. A solidão, o abandono, nada são quando se está na mão do Pai, quando se vive em intimidade com Deus, quando se sabe protegido e amado por Deus.
Jesus não foi deixado só e nenhum de nós é deixado só por Deus, ele acompanha-nos ainda que muitas vezes os nossos olhos estejam mais fixados na areia do deserto ou na lama do caminho.
Por isso, quando Jesus fala de paz, quando nos oferece a sua paz, é a paz que flui desta confiança e desta relação de intimidade, desta união que dá forças para enfrentar todas as situações e desafios. É a paz de quem se sabe acompanhado, nunca só ou abandonado.
Senhor meu Deus que eu sinta sempre esta paz da tua presença paterna!

Ilustração: Caminho de Santiago junto à igreja de Villambistia. Caminho de Santiago. 8 de Maio de 2010.

Frei Domingos Maria Frutuoso – Vigário Geral do Mestre da Ordem para Portugal

Continuamos a apresentação da resenha sobre a vida e obra de frei Domingos Maria Frutuoso na restauração da Província de Portugal da Ordem dos Pregadores.

Ainda não tinham passado quatro meses sobre a sua profissão solene na igreja do Corpo Santo, quando a 2 de Fevereiro de 1898 é convidado pela Rainha D. Amélia a apresentar-se no Palácio das Necessidades para tratar da formação religiosa e do ensino do catecismo aos Príncipes Reais, D. Luís Filipe e D. Manuel.
Querendo Sua Majestade a Rainha minha Augusta Ama, que Suas Altezas Reais comecem a aprender a doutrina cristã pela voz autorizada de um Sacerdote, dignou-se escolher o Senhor Padre Frutuoso, o que agora comunico a Vossa Reverência.”
Frei Domingos Frutuoso ocupou esta função até 1906, ensinando os Príncipes Reais que no final da formação se apresentavam em exame ao Cardeal Patriarca de Lisboa. De acordo com o que confessa, numa carta escrita a D. Manuel II já então no exílio, frei Domingos Frutuoso nunca recebeu qualquer remuneração por este serviço prestado à Família Real.
A Vossa Majestade basta dizer o que muito bem sabe, aliás. Se o Padre Domingos Frutuoso entrou sempre nos Paços Reais de cabeça levantada durante os oito anos que teve a grande [honra] de ser mestre de Religião de Suas Alteza Sereníssimas, levando sempre a sua isenção a não receber a mais ligeira remuneração, pois nenhuma valia aquela honra tão grande, compreenderá alguém que o actual Bispo de Portalegre se curve diante dos homens que dirigem a coisa pública, ou os adule, ou aceite ostensivamente o novo regime?”

A partir do Corpo Santo, onde reside na comunidade dos dominicanos irlandeses, e na qual tem alguns ofícios como o de Sacristão e de Secretário do Conselho da Casa, frei Domingos desenvolve paralelamente ao serviço prestado no Palácio Real um trabalho intenso de pregação e acompanhamento espiritual, destacando-se neste âmbito o Colégio e Mosteiro do Bom Sucesso e o Mosteiro do Sacramento a Alcântara, então na posse das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, e nos quais não só celebra a Eucaristia, como confessa e prega retiros.
É face a este trabalho imenso, que se estende a outras cidades do país, que frei Domingos Frutuoso concebe de uma forma mais prática a ideia da restauração da Província de Portugal, adquirindo nesse sentido a 11 de Agosto de 1908 uma casa na Rua de São Tiago, número 92, em Viana do Castelo, bem perto do antigo convento de São Domingos.
Liberto da educação dos Príncipes Reais em 1906, e após a morte da mãe, ocorrida a 12 de Setembro de 1908, frei Domingos Maria Frutuoso dirige-se a Roma para expor ao Mestre da Ordem Jacinto Cormier o seu desejo e projecto de restaurar a Província Dominicana Portuguesa. Em Fevereiro desse ano de 1909 consegue do Mestre da Ordem o aval do seu projecto, regressando a Portugal como Vigário Geral.
Graças a Deus! Decidiu ontem, 14, o Conselho que eu fosse o Vigário do meu Superior Geral em Portugal. Graças a Deus!”
Com este estatuto e autoridade frei Domingos dá início a uma nova etapa no ressurgimento e restauração da Província de Portugal.

Neste sentido em finais de Março, princípios de Abril deixa o Comunidade do Corpo Santo e fixa moradia na Parede, onde como diz “terei muito mais tempo para estudar”.
Ainda neste mês de Abril de 1909, e aproveitando uma viagem a Viana para ver a casa que tinha comprado, fala com o Arcebispo de Braga sobre a abertura de uma Casa dominicana em Viana, projecto que tem um acolhimento positivo. Em Julho tudo se prepara.
Já dei ordem de se comprarem os tarecos indispensáveis para a casa de Viana, como panelas, tachos frigideiras, cadeiras bem sólidas, candeia para a cozinha, etc., e eu metido nestes arranjos caseiros que até me fazem rir! Nunca pensei nestas coisas senão agora. (…) Também há quem me dê as roupas para a casa e os paramentos para a nossa capelinha interior. Com a ajuda de Deus viveremos sempre muito contentes.”
Pouco tempo depois estão já ali o irmão António, que cuidadosamente trata do jardim e do quintal e mais tarde os padres espanhóis Maximino Llaneza e Raimundo Castaño, que serão vítimas da guerra civil espanhola de 1936.
No final do ano de 1909 estão já a caminho de Itália dois postulantes.
Já tive notícias dos meus postulantes de Lourdes. Devem ter chegado a Florença há dias. Que Nossa Senhora os faça crescer em número e qualidade.” Enquanto que em Viana prosseguem as obras e o acolhimento, que como comenta foi de alguma forma triunfal.
No início de 1910 consegue do Mestre da Ordem a transferência da Casa da Parede para Lisboa.
Já estou com desejos de ver a nossa casa nova, que me faz ter por vizinhos muitas das pessoas a quem mais quero neste mundo. (…) O nosso Padre Geral aprovou plenamente a minha resolução de nos transferirmos da Parede para Lisboa, o que me deu a maior consolação.”

A necessidade da mudança da Parede era premente face à enorme quantidade de solicitações na cidade. Ainda assim, frei Domingos Frutuoso fixa a sua residência em Viana, estabelecendo a primeira semana de cada mês como o tempo para estar em Lisboa e servir os seus fiéis no Mosteiro do Sacramento
Assistimos por esta altura a uma actividade de pregação frenética, pois frei Domingos Frutuoso ora se encontra em Lisboa, como se encontra em Viana, passa por Aveiro ou está pregando em Braga. Neste ano de 1910 passou quase todo o mês de Fevereiro pregando na cidade de Braga, pregação muito aplaudida e com ecos nos principais jornais da cidade e do Porto.
É numa destas pregações, no mês de Junho, no seminário da Guarda, que o Bispo D. Manuel Vieira de Matos lhe propõe a abertura da primeira escola apostólica na Guarda. Não contente com as condições, frei Domingos Frutuoso acaba por abdicar da oferta e optar por abrir a escola apostólica na casa de Viana do Castelo, facto que não se chegou a verificar devido à implantação da Republica a 5 de Outubro de 1910.

Ilustrações:
1 – Fotografia da Rainha D. Amélia de Orleães e Bragança, tirada em Londres.
2 – Fotografia de Frei Domingos Maria Frutuoso.
3 – Fotografia da Igreja do Corpo Santo em Lisboa no início do século XX.
4 – Fotografia da Igreja de São Domingos em Viana do Castelo. Maio de 2011.

domingo, 20 de maio de 2012

Frei Domingos Maria Frutuoso – Infância e Vocação Dominicana

No seguimento do Encontro da Família Dominicana na Ribeira de Santarém apresentamos alguns dados sobre a infância e vocação dominicana de frei Domingos Maria Frutuoso, mais tarde Bispo de Portalegre.

Tenho bastante para lhe contar a propósito da nossa Província. Serviu-me ter-se dito por um Cardeal da Santa Igreja que o Padre Domingos Frutuoso seria um dia o Patriarca de Lisboa, e foi dito em Roma a quem mo contou. Logo que o padre Theissling me comunicou que já não existia a nossa Província, escrevi-lhe uma carta, a que me respondeu, que convocara novamente o seu Conselho, e que emendaram a mão, ressuscitando a Província.
Tenho muito que contar, e gostarão de saber que pela nossa Província passei fome, para me manter fora do Corpo Santo, onde me queriam, destruindo também o que havia já feito nesse sentido. Pobre Província!”

É com estas palavras que D. Domingos Maria Frutuoso se dirige ao frei Tomás Maria Videira, numa carta datada de 22 de Maio de 1943, há portanto sessenta e nove anos atrás, e num momento crítico para a vida e restauração da Província. O que ele terá contado ao frei Tomás Maria Videira não o poderemos saber, sabemos sim o que nos testemunham os documentos, nomeadamente a correspondência de frei Domingos Maria Frutuoso, sobre a sua acção na Restauração da Província e a sua vida enquanto frade da Ordem de São Domingos.

Neste sentido, se hoje estamos aqui em Santarém, é porque os documentos nos atestam que frei Domingos Maria Frutuoso nasceu na Ribeira de Santarém, paróquia de Santa Iria, onde foi baptizado com o nome de Manuel Rosa Frutuoso.
Filho de Francisco Rosa e Ana de Jesus nasceu a 13 de Fevereiro de 1867 segundo os registos oficiais.

Contudo, e segundo palavras suas, ou melhor da sua mãe, ele não teria nascido a 13 de Fevereiro mas a 13 de Janeiro. Assim escreve ele numa carta de 2 de Fevereiro de 1918:
Vi hoje a Prima C. (…) Falou-me de se ter esquecido do dia 13, mas disse-lhe que recebi os parabéns em Janeiro e Fevereiro, porque o livro do baptismo certamente por engano diz ter eu nascido a 13 de Fevereiro, o que a mãezinha dizia não ser verdade.”
De facto e pela correspondência pessoal percebemos que frei Domingos Maria Frutuoso celebrou sempre em família a sua data de nascimento a 13 de Janeiro, dia que como ele escreveu era sempre de grande alegria para a mãezinha.
A mãe é na sua correspondência a grande referência, a grande recordação da vida familiar e seus valores, e após o seu falecimento em Lisboa a 12 de Setembro de 1908, todos os dias doze de cada mês aplica a Missa que celebra pela alma da mãe.
Já no que diz respeito ao pai encontramos apenas uma referência, e de alguma forma trágica, dolorosa, o que deixa supor um desaparecimento bastante precoce na vida do jovem Manuel Rosa Frutuoso.
Admirei-me de assistir por mais de uma hora àquele estudo, sem incómodo, como se fora médico. Depois é que me lembrei de que em tempos um médico muito distinto, fazendo curativos muito dolorosos a meu pai e a que a mãezinha assistiu, corajosa, disse que ela era uma mulher forte e uma enfermeira muito distinta.”
Também a sua irmã Venância desapareceu cedo e por isso são também escassas as referências.
Esta boa tia foi a madrinha da minha mana Venância de quem me lembro com as maiores saudades.”

Aos onze anos, Manuel Rosa Frutuoso deixa a casa materna para entrar no Seminário Patriarcal instalado em Santarém.
Entrou nessa grande instituição a 6 de Outubro de 1878 na classe dos alunos gratuitos e trazido pela mão de uma senhora que quarenta anos mais tarde encontrará e procurará para lhe agradecer.
Aluno brilhante Manuel Rosa Frutuoso concluirá o curso com distinção, ocupando por isso imediatamente após a ordenação de presbítero, celebrada a 15 de Junho de 1889, o cargo de Prefeito do Seminário.
Na ausência do Cardeal Patriarca de Lisboa D. José Sebastião Neto, foi Manuel Rosa Frutuoso ordenado pelo Arcebispo de Mitilene D. Manuel Baptista da Cunha, mais tarde Arcebispo de Braga e anfitrião das semanas de pregação em 1910 de frei Domingos Frutuoso nessa cidade.
Entre 1889 e 1893, o jovem padre Manuel Rosa Frutuoso habitou o Seminário Patriarcal de Santarém, no qual para alem de Prefeito foi também professor de canto e latim, e deu aulas particulares de geografia.
Foi também nomeado pároco de Santa Maria de Óbidos, onde nunca chegou a residir por incompatibilidade com as funções do Seminário, e parece que nem a visitar, pelo que se viu obrigado a renunciar a esse ministério após dois anos de nomeação.

Segundo a notícia que frei Tomás Maria Videira redigiu para “O Facho” em 1949, aquando da morte de D. Domingos, o interesse do jovem padre Manuel Rosa Frutuoso, pela Ordem de São Domingos terá despertado quando pelo Seminário de Santarém passou um dominicano francês, da Província de Toulouse, no rastro da vida e morte do Beato Bernardo de Morlans e dos seus dois pequenos discípulos.
Contudo, e desconhecendo a data da passagem desse dominicano francês, podemos interrogar-nos se não haveria já algum interesse anterior, e isto porque segundo a mesma crónica de frei Tomás para “O Facho”, o padre Manuel Rosa Frutuoso era já irmão da Ordem Terceira e tinha como padroeiro o Beato Bartolomeu dos Mártires.
Assim o confirma D. Domingos numa carta dirigida ao frei Tomás Videira em 1942:
As Terceiras devem assinar T.O.P.: assim é que me ensinaram quando eu entrei na Ordem Terceira com o nome de frei Bartolomeu dos Mártires.”
Outros dados a ter em conta na vocação dominicana do jovem Manuel Rosa Frutuoso é a ainda existência do Mosteiro de São Domingos das Donas na cidade de Santarém e a antiga pertença à Ordem Dominicana do Director do Seminário Patriarcal o Cónego Joaquim Moreira Pinto.

Segundo o Almanaque do Clero do Patriarcado de 1862, o Cónego Joaquim Moreira Pinto, Director do Seminário de Santarém era um antigo frade de São Domingos, um frade que no ano de 1830 vemos inscrito como colegial no Colégio de São Tomás de Coimbra.
Ter-se-iam encontrado no Seminário Manuel Rosa Frutuoso e Joaquim Moreira Pinto? É provável. Teria o antigo dominicano alguma influência espiritual sobre o jovem seminarista? Não se sabe.
Incontestável, porque confessado pelo próprio, é que Manuel Rosa Frutuoso, aos catorze anos se sentiu chamado à vida religiosa.
Eu também me senti chamado à vida religiosa desde os 14 anos, mas continuei no seminário, onde me ordenei, servindo a minha diocese pelo tempo de cinco anos, e entrei aos 26 da minha idade na Ordem de São Domingos.”

Mas se desconhecemos a influência do antigo dominicano, o mesmo já não se pode dizer do Padre Hyckey da comunidade dominicana irlandesa do Corpo Santo, visitante assíduo do Seminário Patriarcal e com quem o jovem padre Manuel Rosa Frutuoso se encontrava frequentemente. É num desses encontros, e vendo a disposição do jovem sacerdote que o Padre Hyckey lhe sugere a vida religiosa dominicana.
Uma visita ao túmulo do Venerável frei Luís de Granada na igreja de São Domingos ao Rossio fará com que algumas resistências internas desapareçam. Neste aspecto não podemos esquecer a relação extremamente forte com a mãe, que como confidencia mais tarde ficou muito desgostosa com a tomada de decisão do filho e ao ver a sua partida no dia 14 de Setembro de 1893.

No dia seguinte Manuel Rosa Frutuoso está no Corpo Santo e um mês depois, a 15 de Outubro de 1893 está a tomar o hábito religioso e a iniciar o noviciado em Saint Maximin em França.
A decisão de fazer o noviciado em Saint Maximin prende-se com o facto de ter sido ali que o padre Hyckey tinha passado alguns anos da sua vida, o que lhe permitia ter conhecimentos que orientassem a jovem vocação.
Ao professar a 15 de Outubro de 1894, Manuel Rosa Frutuoso, frei Domingos Maria, torna-se o primeiro dominicano português após a expulsão das Ordens Religiosas em 1834 a professar e a primeira pedra do edifício da restauração da Província.
Terminado o noviciado em Saint Maximin frei Domingos Maria Frutuoso seguiu para Toulouse, onde se manteve até 1897, ano em que regressa a Portugal e professa solenemente nas mãos de frei Pio Mac Alliney, Superior da Casa do Corpo Santo, a 16 de Outubro.
Durante o tempo em que viveu em Toulouse frei Domingos pôde aprofundar os seus conhecimentos sobre São Tomás e entrar em contacto com eminentes teólogos, alguns deles discípulos imediatos do Padre Lacordaire, de quem frei Domingos falará sempre com muita veneração.

Ilustrações:
1 – Fotografia D. frei Domingos Maria Frutuoso, possivelmente de 1921.
2 – Fotografia do Padrão de Santa Iria na Ribeira de Santarém.
3 – Fotografia da igreja e Seminário Patriarcal de Santarém no século XIX.
4 – Digitalização da primeira página de “O Facho”, de Setembro de 1949.
5 - Digitalização da fotocópia do Assento da Profissão de frei Domingos Maria Frutuoso.

Domingo da Ascensão do Senhor

Celebramos hoje a Solenidade da Ascensão de Jesus ao céu e se há em algum momento dos Evangelhos uma mensagem com uma dimensão ecológica implícita tal acontece no trecho que escutámos, neste episódio da Ascensão narrado por São Marcos.
Ao despedir-se dos doze, Jesus não só lhes deixa o mandato de irem por todo o mundo, mas também o de anunciarem o Evangelho a toda a criatura. Esta ordem, deixada aos doze, assume assim a unidade universal, a dimensão cósmica de toda a criação e da redenção alcançada por Jesus. Não foram apenas os homens que foram redimidos, nem é só a eles que se dirige a mensagem de salvação, a obra salvífica de Jesus, mas a toda a criatura e a toda a criação.
Esta ideia da universalidade da salvação e a sua dimensão ecológica está já patente no Evangelho de São Marcos no capítulo primeiro, quando depois das tentações do deserto nos é dito que Jesus permaneceu ainda ali vivendo com os animais selvagens e sendo servido pelos anjos. O Evangelista assume dessa forma a profecia de Isaías, na qual se diz que o lobo viverá com o cordeiro, e proclama a sua realização em Jesus e na sua obra.
Inevitavelmente esta mensagem e esta dimensão têm consequências na nossa vida e na forma como nos posicionamos face aos outros homens, à natureza, e aos recursos naturais que exploramos e somos convidados a partilhar e a salvaguardar. Há uma ligação íntima entre todos nós, uma ligação estabelecida por Deus na obra da criação e que Jesus veio evidenciar e convidar-nos a preservar.
Neste sentido, e como cristãos, é-nos exigida uma maior atenção no que diz respeito à salvaguarda dos recursos naturais, à sua utilização racional e sustentável, a todas as modalidades e formas que civilmente surjam de preservação e combate ao esbanjamento material. Somos chamados a levar uma mensagem de paz, uma mensagem de equilíbrio, uma mensagem de esperança.
Porque a esperança, como diz São Paulo na Carta aos Efésios, é a outra grande realidade, o grande tesouro que nos é deixado com a ascensão de Jesus ao céu. Somos herdeiros e participantes de um processo que foi iniciado em Jesus, mas no qual estamos já todos envolvidos e somos participantes, que é a ascensão da natureza humana ao divino.
Confiantes nesse processo e nessa elevação vivemos na esperança de um dia não só partilhar da glória divina, mas desde já vivermos essa mesma dignidade na medida da nossa adesão e compromisso com ela. Somos hoje os filhos de Deus e nessa medida o mundo, a natureza, os nossos irmãos, esperam de nós um sinal de vida, um gesto de justiça, um acto de amor com cada uma das realidades com que interagimos.
Elisabeth Leseur no seu “Diário” escreveu um dia que “a alma que se eleva com ela eleva o mundo”, expressão verdadeiramente paradigmática do mistério da ascensão de Jesus que hoje celebramos e somos convidados a viver, pois em cada situação e em cada realidade devemos elevar o mundo, redireccioná-lo à verdade da sua origem e à bondade que lhe esteve subjacente.
Tal missão não está isenta de fracassos, nem de desânimos, e até de equívocos na sua prossecução, razão pela qual Jesus deixou aos seus discípulos e a todos os que acreditassem nele a promessa da sua presença e da sua cooperação, a presença e a força do Espírito Santo.
E a possibilidade de equivocação está bem patente na narração que os Actos dos Apóstolos fazem do momento da ascensão, pois apesar de tudo e de todos os ensinamentos os discípulos ainda perguntaram se era naquele momento que Jesus ia restaurar o reino de Israel. Uma vez mais mostram que não estavam a perceber grande coisa, que o grau de incompreensão era bastante elevado e abrangente.
E perante esta situação, Jesus não responde mais nada, não revela mais nada, apenas deixa a promessa do Espírito Santo e a necessidade de testemunhar o que tinham vivido, a experiência que tinham feito com ele de passagem da morte à vida, a esperança que daí derivava face a todas as outras realidades e desafios.
Que o Espírito Santo, memória viva e actuante de Jesus e de tudo o que ele viveu e ensinou, nos fortaleça no nosso testemunho e na esperança que nos habita, para que possamos enfrentar todos os desafios e anunciar a todas as criaturas que um reino de paz e amor é possível, a unidade e a fraternidade universal, cósmica, nos foi oferecida a todos por Jesus Cristo.

Ilustração: “Ascensão de Jesus”, de Rembrandt, Alte Pinakothek, Munique.

sábado, 19 de maio de 2012

Encontro da Família Dominicana na Ribeira de Santarém

Estou de regresso a casa, depois de ter passado o dia de hoje no Encontro da Família Dominicana, este ano celebrado em Santarém, local do nosso primeiro convento.

Contudo não foi por essa razão que Santarém foi escolhida para albergar o Encontro, mas sim pelo facto de ser, e mais particularmente a Ribeira de Santarém, o lugar de nascimento daquele que foi o primeiro dominicano da restauração da Província, frei Domingos Maria Frutuoso.

Logo cedo nos encontrámos na Ribeira de Santarém, do outro lado da linha do comboio, pois foi numa daquelas casas da Ribeira que frei Domingos Maria Frutuoso veio ao mundo e foi na igreja paroquial de Santa Iria que foi baptizado a 3 de Março de 1867.


Vindos de vários pontos do país ali nos encontrámos para prestar a homenagem possível, ficar a conhecer um pouco a figura e obra de frei Domingos Maria Frutuoso e aprofundar os nossos laços de fraternidade enquanto Família Dominicana.





Após as saudações habituais de quem já não se vê há algum tempo, alguns de nós desde o passeio do ano passado a Viana do Castelo, onde tivemos convento fundado por frei Bartolomeu dos Mártires e frei Domingos Frutuoso comprou uma casa que veio a ser a primeira casa da restauração, iniciou-se oficialmente o Encontro no Teatro Clube Ribeirense com a apresentação de uma resenha da figura e obra de frei Domingos Maria Frutuoso.



Seguiu-se depois uma visita à Ribeira de Santarém, na qual não podia deixar de faltar o Padrão de Santa Iria e o Museu Etnográfico local, e que foi gentilmente conduzida por um dos elementos da Autarquia local.







Para almoçar reunimo-nos no Seminário de Santarém, antigo colégio jesuíta, e no qual frei Domingos Maria Frutuoso fez a sua formação em ordem à ordenação para o clero do Patriarcado de Lisboa, pois no século XIX Santarém fazia ainda parte do Patriarcado de Lisboa. No antigo refeitório jesuíta pudemos partilhar e desfrutar entre todos o que cada um tinha levado para o almoço.




Seguiu-se um espaço de tempo livre que alguns de nós aproveitámos para tentar ver o antigo Mosteiro Dominicano das Donas de Santarém, tentativa infrutífera uma vez que ali está o quartel da PSP, e o que resta do Convento de São Domingos, uma escalavrada parede onde os restos de pedra lavrada deixam supor que pertencesse ao antigo refeitório. Como não podia deixar de ser passámos também pela igreja do Santíssimo Milagre, hoje santuário.




Para concluir o Encontro celebrámos a Eucaristia na Sé, na antiga igreja do colégio dos jesuítas, um exemplo acabado do estilo barroco e arquitectura jesuítica, e que merece uma visita mais prolongada.








No momento da despedida pudemos ainda apreciar as relíquias de frei Gil de Santarém, cuja urna se encontra na sacristia da Sé.


Foi um dia tranquilo, de muita serenidade e fraternidade e por isso não podemos deixar de dar graças a Deus e agradecer a todos aqueles que o proporcionaram. As fotografias testemunham o vivido neste dia 19 de Maio de 2012.



Ilustrações:
1 – Imagem de Santa Iria junto ao rio Tejo na Ribeira de Santarém.
2 – Membros do grupo em passeio pelas ruas da Ribeira de Santarém.
3 – Interior do Teatro Clube Ribeirense com os membros da Família Dominicana.
4 – Grupo dos visitantes junto ao Padrão de Santa Iria.
5 – Aspecto do refeitório e momento de confraternização ao almoço.
6 – Resto da parede do antigo Convento de São Domingos.
7 – Celebração da Eucaristia presidida pelo Prior Provincial frei José Nunes.
9 – Urna com as reliquias de São frei Gil de Santarém.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Não sabemos o que está a dizer (Jo 16,18)

As palavras de Jesus nem sempre foram claras para os discípulos, bem pelo contrário, muitas vezes deixaram-nos à beira do desespero da incompreensão, e quando Jesus fala do mistério da sua morte e ressurreição, do seu regresso ao Pai e do envio do Espírito Santo, esse desespero e incompreensão são ainda mais evidentes.
A última ceia e o discurso da despedida de Jesus é por demais o acontecimento em que as palavras de Jesus adquirem uma dimensão misteriosa inexplicável. Ainda que num contexto de ceia e celebração tudo aponta para outras realidades, e algumas delas muito dolorosas, como a paixão e a morte, enquanto que outras são completamente desconhecidas, como o Espírito Santo.
À questão e murmuração dos discípulos sobre a incompreensão face ao proferido, Jesus responde revelando a necessidade de ultrapassar a prova que se apresenta imediata e quase visível, a paixão e o sofrimento da morte. Só a passagem pelas lágrimas e pelo lamento permitirá o encontro verdadeiro com a alegria da Ressurreição.
Será necessário perder Jesus, perder a forma como estão relacionados com ele nas expectativas que criaram, para se encontrarem verdadeiramente com ele, para se encontrarem com aquele que vive eternamente e por isso é ressuscitado, e com o seu espírito que vivifica.
Será necessário passar o mar do absurdo e da incompreensão do sofrimento e da morte daquele de quem tudo esperam para se encontrarem com aquele que afinal dá sentido a tudo, para se encontrarem com aquele que nesse mar é a barca que nos leva e portanto nos protege e guarda.
Também nós na nossa vida muitas vezes nos encontramos com a incompreensão daquilo que Deus nos está a dizer e a pedir. Custa-nos aceitar perder, dar o que afinal não é nosso, sair do nosso mundo e da nossa protecção e enfrentar o mar da confiança e da fé no qual não se vislumbra a margem ou a barca.
Nesses momentos temos que acolher as palavras de Jesus “não se perturbe o vosso coração”, “tende fé”, porque eu venci o mundo. Aumenta Senhor a minha fé, para avançar no mar e na noite, e gozar da alegria da vida após a passagem e a batalha.

Ilustração: Subida para o Alto de Erro. Caminho de Santiago. 1 de Maio de 2010.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Tenho ainda muitas coisas para vos dizer (Jo 16,12)

Jesus conhecia os seus discípulos, tal como Deus conhece os homens, obra das suas mãos, e por isso no momento da despedida diz-lhes que tem ainda muitas coisas para lhes dizer apesar de não as compreenderem por enquanto.
Será necessário que venha o Espírito da Verdade para que não só compreendam o que já lhes foi dito e não compreenderam, mas para que possam ter uma plena compreensão do que lhes vai ser dito pelos acontecimentos da paixão.
Será o Espírito que os guiará, que os iluminará na compreensão de todas as palavras e gestos, no sentido da paixão e da morte do Mestre, será o Espírito que os instruirá na complexidade das Escrituras e no seu cumprimento em Jesus.
Face a esta promessa, e aviso de Jesus, temos que ter presente que os discípulos de Jesus Cristo não são aqueles que sabem tudo, que têm o conhecimento de toda a verdade, ou que sabem melhor que os outros, que têm um conhecimento especial.
A promessa de Jesus do envio do Espírito Santo é a confirmação e o desafio de que ser discípulo é colocar-se em situação de busca, de procura, de partilhar um processo que se vai desenvolvendo e construindo.
Ser discípulo de Jesus Cristo é saber-se num processo de amor, numa relação de amor, porque o amor impele à descoberta, não está satisfeito, nem se contenta com o garantido, procura sempre um pouco mais. O amor coloca-nos em caminho de encontro e de descoberta.
E uma vez mais fazendo referência a Santa Catarina de Sena, não podemos deixar de sentir que quanto mais aprofundo no conhecimento de Jesus Cristo mais sinto necessidade de continuar a aprofundar, de mergulhar mais fundo nem oceano em que nos perdemos e nos encontramos.
Neste sentido, procurar, perder, reencontrar e voltar a perder para reencontrar de novo é o mais natural no seguimento de Jesus, na busca da compreensão do seu mistério e do amor a que somos convidados a viver.
Como as crianças, que tantas vezes nos desesperam porque nos interrogam sobre o porquê disto e daquilo, também nós somos convidados por Jesus a perguntar, a buscar, a encontrar a resposta que o Espírito nos dará. Nada é tão inviabilizador de qualquer conhecimento, e sobretudo do conhecimento da verdade, como dá-lo por adquirido, completo e definitivo.
Que o amor, que sempre busca mais, deseja mais, nos impulsione na busca da verdade de Jesus Cristo, que como as crianças e os enamorados gostam de se esconder para serem procurados com mais desejo.

Ilustração: Cúpula da igreja do Santo Sepulcro em Torres del Rio. Caminho de Santiago. 5 de Maio de 2010.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Ninguém me pergunta “para onde vais”! (Jo 16,5)

Depois de tantas confusões, de tantas outras perguntas, Jesus confronta agora os discípulos com o silêncio a que se remeteram, um silêncio que denuncia um desalento, uma incompreensão, uma desorientação face ao futuro e às expectativas.
Pedro já antes tinha perguntado a Jesus para onde ia (Jo, 13,16) e Tomé tinha deixado essa questão subjacente quando tinha dito a Jesus que não sabiam para onde ia como poderiam saber o caminho (Jo 14,5).
Contudo, agora que Jesus lhes diz que terão que sofrer perseguições, que serão expulsos das sinagogas e que ele regressa àquele que o enviou, nenhum deles tem a coragem e a ousadia de lhe perguntar para onde vais.
É como se houvesse um desinteresse, como se uma frustração tremenda se tivesse abatido sobre eles, pois aquilo pelo qual tinham esperado parecia que se esvanecia no horizonte, tudo se conformava para algo totalmente diferente. Como nos diz São João, o coração encheu-se-lhes de tristeza.
Estas questões e este silêncio revelam no entanto a complexidade do discurso de despedida de Jesus, a incompreensão por parte dos discípulos face ao que Jesus lhes anunciava e se perspectivava. De facto era algo totalmente novo, uma verdadeira revolução para a qual eles não estavam ainda preparados, e que os ultrapassava na sua compreensão.
Mas, e como Jesus diz, é necessário que ele parta, é necessário regressar ao Pai, e sobretudo é necessário que os discípulos compreendam que isso não significa uma perda mas pelo contrário a oportunidade e a possibilidade de verdadeiramente o compreenderem.
De o compreenderem no mistério da encarnação e na sua divindade, do que tinham vivido com ele durante aquele tempo de tantas expectativas, mas sobretudo de o compreenderem no sentido da desapropriação, no sentido de um relação completamente livre e que pode ser estabelecida em qualquer lugar, em qualquer momento e em qualquer circunstância.
A proposta de Jesus é a do afastamento da idolatria da sua pessoa, porque, ainda que Deus, é o seu Pai e nosso Pai que deve ser adorado, foi dele que procedeu e é a ele que regressa para que todos possamos regressar também. Jesus é a imagem do Pai, a manifestação salvadora do Pai.
Neste sentido, a resposta que tinha dado a Tomé “eu sou o caminho, a verdade e a vida”, revela-nos e convoca-nos a uma relação fundamental com o Pai, pois Jesus tudo aponta e encaminha para o Pai. A sua vida e tudo o que ensinou aos discípulos são apenas uma forma exemplar de como estabelecer essa relação.
Arrisquemos pois seguir Jesus na relação que ele estabeleceu com o Pai, uma relação que como nos ensinou é filial, funda-se no amor mútuo.

Ilustração: Cruzeiro junto ao Arroyo de Sambol, entre Hornillos del Camino e Hontanas. Caminho de Santiago. 11 de Maio de 2010.