segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Santo Antão no Caminho de Santiago

Celebramos hoje a memória de Santo Antão Abade, conhecido como o pai do monaquismo, o que nos dá oportunidade para falar dele e de um hospital com a sua invocação que se encontra no Caminho de Santiago.
Filho de uma família cristã, conta-nos Santo Atanásio na Vida que escreveu dele, que após a morte dos pais e escutando na igreja as palavras “se queres ser perfeito vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres”, se separou de todo o seu património para se dedicar a uma vida de maior perfeição e pobreza no seguimento de Jesus Cristo.
Num desejo de maior solidão e ascese, das que tinha no espaço urbano em que vivia, entranha-se no deserto do Egipto para viver de forma mais radical essa dedicação total a Deus. É aí que dá origem ao que hoje chamamos de monaquismo, agregando a si outros homens e mulheres, que passaram a viver em comunidade, partilhando a experiência de Deus e a austeridade de vida.
Desta sua experiência e vida chegaram até nós um conjunto de referências, que podemos encontrar nos chamados “Apotegmas dos Padres do Deserto”, uma colecção de ditos, provérbios, anedotas edificantes que ajudaram a construir e a desenvolver o que posteriormente se constituiu como vida monástica.
No século XI, mais precisamente em 1095, no Delfinado francês vai surgir uma Ordem religiosa que o vai assumir como patrono. Serão conhecidos por Antonianos e desenvolverão todo um ministério de acolhimento e tratamento daqueles que eram portadores de uma doença comum na época e conhecida por mal de Santo Antão, uma doença que hoje sabemos é provocada pela ingestão de pão de centeio infectado por um vírus. A Ordem chegou a ter perto de quatrocentos hospitais por toda a Europa.
Face ao movimento humano provocado pela peregrinação a Santiago de Compostela não é de estranhar que encontremos esta Ordem religiosa e hospitais seus no Caminho de Santiago. É pouco antes de Castrojeriz, cerca de quatro quilómetros, que encontramos um desses hospitais, e surpreende-nos pelo inusitado, pela beleza e também pelo estado de ruína em que o encontramos.
Partimos da pequena aldeia de Hontanas e depois de termos caminhado alguns quilómetros por pequenos caminhos rurais, nas faldas dos montes, onde encontramos outras ruínas, descemos até ao amplo vale e entramos numa estreita estrada asfaltada, para ao virar da curva nos depararmos com uns arcos góticos, soberbos, sobre a estrada em que caminhamos.
Nada nos fazia adivinhar aquela beleza e grandiosidade, escondida ali no fundo do vale, entre as árvores junto ao pequeno rio, e que obrigatoriamente temos que atravessar porque era e é por ali mesmo, sob aqueles arcos em flecha que transcorre o Caminho para Santiago. A estrada de alcatrão cobriu as lajes de pedra que certamente marcariam o espaço daquele magnifico pórtico.
Paramos, pois é necessário parar para apreciar as janelas e rosáceas esventradas de vitrais e onde o tau, símbolo da Ordem, se entrelaça em rendilhado, as paredes elevadas em pedra clara, a abside da igreja onde despontam os pináculos e cresce a hera. É um belo edifício do século XIV, que mostra a patine dos séculos e a incúria dos homens, que testemunha a caridade e o acolhimento que houve no Caminho de Santiago.
Diante dos nossos olhos, ao nosso nível, o pórtico esculpido de pequenas imagens de santos e anjos que o tempo poliu e desfez, recordando-nos aqueles que já caminharam e hoje nos convidam a elevar os olhos para o alto. Os tijolos na porta vedam-nos o acesso ao interior, ao que seria a nave da igreja do hospital, preservando-a assim no nosso imaginário medieval. Nos pilares dos arcos, frente à porta, dois nichos, onde segundo reza a tradição os monges deixavam comida e água para os peregrinos que chegavam de noite e encontravam a porta da igreja já fechada.
Há nestas pedras e neste edifício algo de mágico, dessa magia do amor feito serviço e acolhimento e por isso o contemplamos, testemunha muda, ou nem tanto, de um homem que deixou tudo para fazer no deserto a experiência do encontro de Deus no silêncio e no serviço dos irmãos, Santo Antão ou António Abade.

1 comentário:

  1. Frei José Carlos,

    Ao recordar-nos que a Igreja celebra hoje a memória de Santo Antão Abade, lembra-nos a forma radical da dedicação total do mesmo a Deus, a origem da vida monástica, invoca a Ordem religiosa que o adoptou como patrono e a presença da mesma e as ruínas de um hospital que se encontra no Caminho de Santiago. O texto em que decreve as ruínas é de grande beleza ilustrado por maravilhosas fotografias ...”que testemunha a caridade e o acolhimento que houve no Caminho de Santiago.” (…) “Há nestas pedras e neste edifício algo de mágico, dessa magia do amor feito serviço e acolhimento e por isso o contemplamos…”
    Frei José Carlos, a oração é importante mas a mesma completa-se pela acção, na caridade, na solidariedade, no amor ao nosso próximo.
    Obrigada por esta interessante partilha. Bem haja.
    Um abraço fraterno
    Maria José Silva

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