domingo, 13 de janeiro de 2013

Homilia da Festa do Baptismo do Senhor

Com a festa do Baptismo de Jesus que hoje celebramos termina o Tempo do Natal e preparamo-nos para viver o Tempo Comum ou Ordinário, um tempo para viver e contemplar a pregação de Jesus e os sinais da presença do Reino de Deus entre nós.
O excerto do Evangelho de São Lucas que escutámos é, neste sentido de preparação para a vida no tempo ordinário, bastante significativo, pois conduz-nos para a prossecução e construção da nossa fidelidade no comum do nosso quotidiano, nesse tempo ordinário do nosso dia-a-dia.
Assim, e a partir deste texto do Evangelho, não podemos deixar de ter em conta que Lucas ao narrar o baptismo de Jesus não o situa no Jordão, no deserto e nem sequer faz menção de João Baptista. Em termos redaccionais estamos perante uma analepse, um retorno no tempo, pois imediatamente antes é-nos narrada a prisão de João por ordem de Herodes.
Tendo também em conta que até este momento todo o capítulo terceiro do Evangelho de Lucas se constrói à volta da figura de João Baptista e da sua pregação de penitência, a narração do baptismo de Jesus surge como um acto do comum, um acontecimento integrado no conjunto dos outros baptismos, pois é quando o povo é baptizado que Jesus é também baptizado.
O baptismo de Jesus dilui-se assim na massa do povo e na acção de João, mas adquire uma outra dimensão na medida das consequências desse mesmo acto quase imperceptível no meio da multidão. É após o baptismo e quando se encontrava em oração que o céu se abriu e o Espirito Santo desceu sobre Jesus em forma de pomba.
A proclamação da filiação divina de Jesus e do amor de Deus pelo seu filho não é assim um acto isolado, oculto, mas aparece visível aos olhos de toda a multidão que também tinha sido baptizada, como se de certa forma todos os que se tinham arrependido e sido baptizados por João fossem também já filhos de Deus.
Jesus assume assim, em si, a totalidade da humanidade, é o tipo de todos os que se aproximam de Deus de coração arrependido, com desejo de uma nova vida, de uma outra fidelidade relacional; e a pomba que aparece sobre Jesus é a resposta de Deus a essa nova humanidade, o consentimento numa nova relação.
Não podemos deixar de ter presente que aquando do dilúvio que destrói a humanidade é uma pomba que traz a Noé o ramo de oliveira que significa o fim do castigo, que significa a paz com Deus. No baptismo de Jesus, o Espirito Santo sob a forma de pomba, para que não haja confusão entre a imagem e a realidade, compõe o novo tratado de paz de Deus com os homens, mostra a misericórdia de Deus, o perdão de Deus feito carne no Filho.
Neste sentido, e considerando o baptismo de Jesus integrado no conjunto dos baptismos de João, não podemos deixar de ter em atenção o nosso tempo comum, os nossos gestos mais humildes e mais pobres, aqueles que não se distinguem por nada de extraordinário, mas pelo contrário se integram no conjunto da banalidade e do insignificante.
É aí, nesses gestos e nesses momentos, quando lidos à luz da oração, da nossa acção de graças a Deus, que descobrimos e nos encontramos com a misericórdia de Deus, com Deus que vem ao nosso encontro e nos revela o seu amor, que nos descobrimos filhos muito amados por Deus.
Esta filiação é extremamente importante e por essa razão São Lucas, quando imediatamente a seguir à passagem que escutámos estabelece a genealogia de Jesus, elabora-a a partir do presente, a partir da filiação, num movimento ascendente, contrariamente a São Mateus que a constrói a partir da paternidade e portanto num movimento descendente do passado para o presente.    
De facto, o que está em causa, o que é importante é ser filho, mais que ser pai, e ser um filho adulto, um homem perfeito como Jesus quando se apresenta a João para ser baptizado. Quantas vezes teimamos em permanecer como crianças, em não crescer, fugindo às nossas responsabilidades, à necessidade de uma resposta fiel e verdadeira!
Como baptizados, mergulhados no banho da divinização que o Espirito opera, não podemos deixar de assumir as nossas responsabilidades, não podemos deixar de viver cada momento do nosso quotidiano como filhos amados, que sentem e procuram viver o amor do Pai nos momentos e circunstâncias mais humildes do dia-a-dia.
Que o Espirito Santo desça sobre cada um de nós e nos fortaleça no espirito da filiação divina.
 
Ilustração: “Baptismo de Jesus”, de Jan Brueghel, o Velho, Deutsche Barockgaleri, Augsburg.

 

3 comentários:

  1. Não vale a pena contestar. Essa é a grande verdade que é preciso viver. Contestamos e procuramos argumentos quando não temos coragem para o fazer.Inter Pars

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  2. Frei José Carlos,

    O texto da Homilia da Festa do Baptismo do Senhor que teceu e partilha é profundo e interessante nas várias interpretações do relato do baptismo de Jesus por João e ao afirmar-nos que ... “O excerto do Evangelho de São Lucas que escutámos é, neste sentido de preparação para a vida no tempo ordinário, bastante significativo, pois conduz-nos para a prossecução e construção da nossa fidelidade no comum do nosso quotidiano, nesse tempo ordinário do nosso dia-a-dia”. … Permita-me, Frei José Carlos, que respigue algumas passagens que me tocam em especial.
    …” O baptismo de Jesus dilui-se assim na massa do povo e na acção de João, mas adquire uma outra dimensão na medida das consequências desse mesmo acto quase imperceptível no meio da multidão. É após o baptismo e quando se encontrava em oração que o céu se abriu e o Espirito Santo desceu sobre Jesus em forma de pomba.
    A proclamação da filiação divina de Jesus e do amor de Deus pelo seu filho não é assim um acto isolado, oculto, mas aparece visível aos olhos de toda a multidão que também tinha sido baptizada, como se de certa forma todos os que se tinham arrependido e sido baptizados por João fossem também já filhos de Deus.(…)
    (...) Neste sentido, e considerando o baptismo de Jesus integrado no conjunto dos baptismos de João, não podemos deixar de ter em atenção o nosso tempo comum, os nossos gestos mais humildes e mais pobres, aqueles que não se distinguem por nada de extraordinário, mas pelo contrário se integram no conjunto da banalidade e do insignificante.”
    Grata, Frei José Carlos, pela partilha da Homilia, que nos leva a interrogar-nos sobre o nosso percurso como baptizados, pela exortação que nos deixa ao recordar-nos que …” Como baptizados, mergulhados no banho da divinização que o Espirito opera, não podemos deixar de assumir as nossas responsabilidades, não podemos deixar de viver cada momento do nosso quotidiano como filhos amados, que sentem e procuram viver o amor do Pai nos momentos e circunstâncias mais humildes do dia-a-dia.”…
    Que o Senhor o ilumine, o guarde e abençoe. Votos de uma boa semana.
    Bom descanso.
    Um abraço fraterno,
    Maria José Silva

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  3. Frei José Carlos,

    Muito Grata pelo maravilhoso texto que propôs para Meditação, tão profundo que nos ajuda à nossa reflexão.Obrigada,Frei José Carlos,pela bela partilha e pela beleza da ilustração que muito gostei.Desejo-lhe um bom dia,com Alegria e Paz.Que o Senhor o ajude e o ilumine e proteja.Bem-haja.
    Um abraço fraterno.
    AD

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